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Empossado, em julho de 2008, como presidente da recém-criada Petrobras Biocombustível, subsidiária da Petrobras que cuida de projetos relacionados à gestão e à produção de etanol e biodiesel, Alan Kardec Pinto* tem muito trabalho pela frente. Afinal, no âmbito do etanol, caberá à subsidiária atingir a meta de produzir e exportar 4,75 bilhões de litros do combustível em 2012. No âmbito do biodiesel, a nova empresa pretende conquistar posição relevante no mercado e, de modo a promover a inclusão social, buscar parcerias com cerca de 80 mil famílias de agricultores, que cultivarão plantas oleaginosas para abastecer as três usinas da Petrobras Biocombustível. Esses e outros assuntos, Kardec aborda em detalhes, em entrevista concedida à Petrobras Magazine.

Plantadoras de girassol

Por que a Petrobras sentiu a necessidade de criar a Petrobras Biocombustível?

A Petrobras já vinha desenvolvendo atividades no segmento de biocombustíveis, conduzidas por diferentes áreas da Companhia, tais como Abastecimento, Gás & Energia e Área de Negócio Internacional. A criação da subsidiária, uma empresa global calcada nos pilares mercadológico, social e ambiental, concentrou todos os projetos de produção de biocombustíveis da holding e a gestão dessa carteira de projetos em um só local, ao passo que a Petrobras continuou a ser responsável pela logística e pela comercialização dos produtos. Em termos ambientais, a subsidiária nasce compromissada com o meio ambiente e com a redução do aquecimento global. No âmbito social, a nova empresa busca parcerias com famílias de agricultores para a obtenção de matérias-primas e, assim, gera emprego e renda no campo. Já em termos mercadológicos, a Petrobras Biocombustível objetiva ter uma participação relevante na produção de biodiesel e etanol.

A Petrobras Biocombustível nasce alinhada ao Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel do governo brasileiro e tem compromisso de buscar e manter a certificação por meio do Selo Combustível Social. O que significa isso na prática?

O biodiesel produzido graças a parcerias com famílias de agricultores vai abastecer as usinas de combustíveis da Petrobras

A empresa segue as premissas do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, que objetiva a implementação, a produção e o uso do biodiesel, de modo ambientalmente sustentável, economicamente viável com enfoque na inclusão social e no desenvolvimento regional, por intermédio da geração de emprego e renda no campo. Dentre as diretrizes da Petrobras Biocombustível em sua relação com a agricultura familiar, estão o estímulo ao cultivo consorciado de plantas oleaginosas e outras culturas alimentícias, a diversificação de culturas oleaginosas respeitando a diversidade regional e suas especificidades de cada região do Brasil. Quanto ao Selo Combustível Social, é concedido aos produtores de biodiesel que compram matéria-prima oriunda da agricultura familiar em percentual mínimo de 50% na região Nordeste do Brasil, 10% nas regiões Norte e Centro-Oeste e 30% nas regiões Sudeste e Sul; firmam contratos de longo prazo com famílias de agricultores de acordo com padrões estipulados; e asseguram assistência técnica aos agricultores, entre outras exigências. Em contrapartida, a empresa produtora obtém redução de impostos, melhores condições de financiamento bancário e ganhos de imagem, já que o selo pressupõe atuação com responsabilidade social. Além disso, pode participar de todos os leilões de biocombustíveis da ANP, órgão que, no Brasil, regula as atividades das indústrias de petróleo, gás natural e biocombustíveis. As plantas de biodiesel da Petrobras em Candeias, na Bahia, e em Quixadá, no Ceará já têm o Selo Combustível Social.

* O cargo de presidente da Petrobras Biocombustível é ocupado por Miguel Rossetto desde maio de 2009.

No segmento de biodiesel, quais projetos são da alçada da Petrobras Biocombustível?

O Brasil produz etanol de cana-de-açucar

Vale destacar as usinas de biodiesel da Petrobras em Candeias, no estado da Bahia e em Quixadá, no estado do Ceará, as quais já estão produzindo, e a Usina de Montes Claros, em Minas Gerais, que deverá ser inaugurada em janeiro de 2009. As três, juntas, quando atingirem capacidade máxima, produzirão 170 milhões de litros de biodiesel por ano. Para obter matérias-primas para supri-las, a Petrobras planeja formar parcerias com aproximadamente 80 mil famílias de agricultores familiares, por intermédio de entidades representativas da categoria, para obtenção de 160 mil toneladas de grãos de culturas oleaginosas por ano. Os agricultores plantarão mamona e girassol, essencialmente. Em Minas Gerais, também será incentivado o aproveitamento econômico da macaúba, planta nativa da região, pela agricultura familiar. Não se tratará de monoculturas. Cada produto será cultivado juntamente com culturas como feijão e milho, para a subsistência das famílias e a venda de excedentes.

Existem planos de exportar biodiesel? Foram firmadas parcerias com empresas estrangeiras com este intento?

No segmento de biodiesel, a meta inicial da Petrobras Biocombustível é conquistar posição relevante no mercado brasileiro, mas a empresa está formando uma parceria com a companhia portuguesa Galp Energia para produzir óleo vegetal no Brasil, levar o produto para Portugal e transformá-lo em biodiesel, para atender ao mercado português e à Europa em geral, que possui um mercado consolidado para o produto. Nessa parceria, a Petrobras Biocombustível atuará como sócia, tanto no Brasil, como em Portugal. O projeto, ainda em estudo, está subdividido em duas fases, cada uma compreendendo a produção anual de 300 mil toneladas de óleo vegetal, extraído da palma e do girassol, e 250 mil toneladas de biodiesel de segunda geração.

Quais principais projetos fazem parte do portfolio da Petrobras Biocombustível no segmento de etanol?

No segmento de etanol, adotamos o modelo já delineado pela Petrobras de construção de Complexos Bioenergéticos (CBios). Trata-se de empreendimentos que prevêem, cada um, a parceria entre uma empresa brasileira majoritária produtora de etanol, a Petrobras Biocombustível, a qual atua como sócia minoritária relevante, e uma empresa internacional que possui mercado de longo prazo para a exportação do produto, esta também funcionando como sócia minoritária relevante. Cada CBio deve produzir 200 milhões de litros/ano de etanol, em média, além de gerar 50MW de energia elétrica, dos quais 1/3 servirá para consumo interno e 2/3 serão destinados a comercialização. Atualmente, estuda-se a constituição de 20 CBios para que a Petrobras Biocombustível possa alcançar sua meta de produzir 4,75 bilhões de litros de etanol para exportação em 2012.

Plantadores de mamona

Quais mercados a nova empresa almeja a conquistar no exterior para o etanol brasileiro?

A Petrobras Biocombustível pretende exportar para grandes mercados consumidores na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos. Levando-se em conta o fato de que o mundo vê o Brasil como um importante fornecedor de etanol porque o país tem grande disponibilidade de terras e água, clima favorável, know-how adquirido a partir da década de 70 por conta do programa Proálcool do governo brasileiro e vantagens em relação ao etanol produzido do milho, tais como custo menor e maior rendimento energético, as chances de se firmar boas parcerias são grandes. Além disso, o Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, superado apenas pelos EUA, e tem amplas condições de ampliar sua produção de etanol sem que a plantação se alastre por áreas florestais ou dispute espaços com culturas destinadas à alimentação.

O futuro do etanol, em sua opinião, tende a ser virar commodity e ser produzido de resíduos agroindustriais, o que constituiria o bioetanol ou etanol de lignocelulose? Como a Petrobras Biocombustível está se preparando para lidar com esse novo quadro?

Acredito que o etanol tende a virar commodity, isto é, mercadoria de qualidade uniforme, produzida globalmente e em grandes quantidades por diferentes produtores. Penso, também, que o futuro está no etanol de lignocelulose ou etanol de 2ª geração, obtido de resíduos vegetais tais como o bagaço da cana-de-açúcar, a palha da cana e a torta de mamona, pela ação de enzimas sobre a celulose presente nos resíduos para obtenção de açúcares e posterior fermentação e destilação. Graças ao etanol de 2ª geração, a Petrobras poderá aumentar em até 60% a produção de etanol utilizando resíduos sem a necessidade de ampliar áreas plantadas. No mundo, o investimento em pesquisas nesse âmbito tem sido grande. Já se tem o domínio da tecnologia do processo enzimático, mas a produção é cara. Portanto, é preciso pesquisar mais para barateá-la. No centro de P&D da Petrobras, o Cenpes, a rota enzimática já vem sendo pesquisada. Uma planta-piloto tem sido utilizada para testes. Quem tornar tal tecnologia economicamente viável terá, certamente, vantagem competitiva.

Em tão pouco tempo de existência, muita coisa já foi feita, mas a responsabilidade é crescente, não é mesmo?

Sem dúvida. Ainda mais considerando que a Petrobras Biocombustível deseja contribuir para o aumento da inserção dos biocombustíveis na matriz energética brasileira e na mundial, o que ajuda a reduzir o aquecimento global e é uma questão também de segurança energética. Dessa forma, diminuímos a dependência brasileira e mundial em relação ao petróleo, que é um recurso fóssil não-renovável; diversificamos fontes de energia; universalizamos o acesso a essas fontes. Ao mesmo tempo, atuamos com responsabilidade social, possibilitando a geração de emprego e renda no campo. Enfim, podemos dizer que a nova empresa não só produz energia limpa e renovável, como também qualidade de vida e cidadania. É uma responsabilidade enorme. E ainda há muito por fazer.